COLETIVO SHOEGAZER LIDERADO POR MÁRIO ALENCAR LANÇA SEU PRIMEIRO DISCO: Lombraless, Lasqueira Vibes [EP]

Texto por Mountrose
Foto por Thiago Duarte

Meu povo é guerreiro! Nesses dias, onde as certezas são tão raras quanto músicas com distorção, tenho me sentido mais jururu que o de costume. Transito entre a sala e o quarto, entre o trabalho e as aflições de nosso tempo. É o novo normal que fomos anomalamente forçados a viver. Nós temos tanto em comum, mas não ajudamos um ao outro. Essa ideia martela como um mantra acusatório de tudo que poderíamos ser e não somos. É o desgaste que nos derruba, é a vida...

Quando fico meio assim procuro me apegar nas janelas que abro quando crio algo. Não escrevo por que gosto, não componho músicas por hobby. Faço o que faço porque preciso... Os pensamentos vem e vão, ou vem em vão... já não me atento muito com especificidades gramaticais, quando o que mais importa é a teia caótica que nos enreda e nos engole num maremoto de dúvidas e distrações cotidianas. Não dá pra ficar para trás, apenas faz.

Mas de repente fui surpreendido. Como numa jornada de herói (que nunca fui), a travessia do primeiro limiar aqui se dá com a chegada do EP Lasqueira Vibes, da Lombraless. Novo projeto do inesgotável Mário Alencar. Bom... surpreendido talvez não seja a melhor palavra. Participei do disco compondo as linhas de baixo e surpresa deveria ser a última coisa a sentir. No entanto, agora com certo distanciamento histórico de alguém que ouve uma canção contemplando a obra pronta e não pensando no seu arranjo, posso afirmar sem muitos senões que de fato o sentimento que tive foi de surpresa.

Foto por Thiago Duarte

Retorno ao EP nessa estranha manhã ensolarada de abril, tentando entender a mensagem por trás de todo ruído proposital do trabalho. Na vida nada vem fácil, de mão beijada. É preciso levantar e buscar o que se deseja. Embora nem sempre levantar e buscar o que se deseja seja o bastante para conseguir algo. Eu sei... na maioria do tempo oscilamos entre os “ses” e os “mas” das decisões que tomamos. O timbre de tudo no disco tem baixa razão sinal/ruído. É difícil perceber as nuances, mas elas estão ali. Escondidas em cada nota errática de cada composição. Como o mar... Relaxo na cadeira de escritório sem detalhes especiais. O “mar” lofi e seu balanço oscilatório é o que preenche os vazios unidirecionais desses dias.

É diferente ouvir uma música e apenas sentir o que ela passa, sem ficar prestando atenção na sua estrutura, nos adaimes que a sustentam, como um mestre de obras lapidando a construção de um edifício. Hoje entendo perfeitamente quando meu pai me dizia, sempre que passávamos pelo porto de Sepetiba, como um disco arranhado: eu participei da construção disso aí. Abro a janela. Azideias surge pra mim como uma paisagem sorrateira nessa manhã de ruas vazias. É tudo nosso e eu participei disso aí.